O trem é todo iluminado pelo sol. É todo transparente, recheado do humor do dia. Ele segue pela superfície, em velocidade peculiar, não é rápido feito o metrô, não empaca feito ônibus.
Desde a estação pode-se testemunhar uma paisagem contraditória. Olhando para frente, vê-se um rio negro e muita vegetação ao seu redor. Ao prender a respiração e simplesmente enxergar a vista, é tudo muito bonito. O céu fica particularmente mais azul que cinza, há matizes de verde muito distantes uns dos outros, como primos que só se encontram no Natal.
Sem sentir o odor do esgoto, não há esgoto. O negro da água desdobra a paisagem, vira óleo sobre tela e a fábrica que aparce no reflexo muito se assemelha à Casa Grande do livro de história. É outro tempo aquele fotografado pela água negra.
Mas, surge a espuma. A criança enche um copo de água, joga detergente, pega o invólucro da caneta bic e assopra na solução. Surge a espuma que transborda do copo. É a mágica, o barulhinho do ar enchendo as bolhas de sabão que refletem todas as cores do mundo.
Foi ali que, pela primeira vez, fechando os olhos diante do sol, também senti a variação. De olhos fechados, vi também todas as cores. Coisa à toa que muito me fascinava era passar a mão pela chama da vela, ou cobrir a luz da lanterna com a mão. Surgia uma mão vermelha repleta de veias, imagem que denunciava qualquer coisa de mim mesma da qual nunca tive controle. Já pensei que pudesse ser a assinatura de deus, mas realmente não acredito num deus que permita tanto sofrimento a quem quer que seja. Embora eu desconheça a causa primeira, sei que o reino perdido nunca existiu e que Pandora não tinha coisa alguma para guardar na caixa, mas foi tão pornográfica a constatação do vazio da caixa, que se fez a loucura.
Mas, a espuma do córrego é imanente ao cheiro, é estéril, recorda a morte e a reprodução ao mesmo tempo: a morte pela putrefação e decomposição e a vida também por esses elementos, posto que há os organismos que se multiplicam na morte, os vermes, micróbios e o que seja. Eles são ativamente transformadores da realidade em matéria, não cessam de consumir tudo que foi abandonado, ignorado. Eles transformam o que ousamos ignorar, denunciam a existência do que deliberadamente abandonamos no leito do rio negro. Nesse aspecto, a espuma do rio é tão pornográfica como o vazio da caixa de Pandora e a loucura sintetiza o vazio como esses organismos sintetizam a matéria.
(Há também as cores na putrefação e decomposição. Há o colorido do bolor. Cores descobertas e combinadas à moda do pintor em sua obra. A matéria morta é colorida e é vida ao contrário, porque é vida que não nos interessa.)
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