Arquivo para Abril, 2009

Todas as cores.

O trem é todo iluminado pelo sol. É todo transparente, recheado do humor do dia. Ele segue pela superfície, em velocidade peculiar, não é rápido feito o metrô, não empaca feito ônibus.
Desde a estação pode-se testemunhar uma paisagem contraditória. Olhando para frente, vê-se um rio negro e muita vegetação ao seu redor. Ao prender a respiração e simplesmente enxergar a vista, é tudo muito bonito. O céu fica particularmente mais azul que cinza, há matizes de verde muito distantes uns dos outros, como primos que só se encontram no Natal.
Sem sentir o odor do esgoto, não há esgoto. O negro da água desdobra a paisagem, vira óleo sobre tela e a fábrica que aparce no reflexo muito se assemelha à Casa Grande do livro de história. É outro tempo aquele fotografado pela água negra.
Mas, surge a espuma. A criança enche um copo de água, joga detergente, pega o invólucro da caneta bic e assopra na solução. Surge a espuma que transborda do copo. É a mágica, o barulhinho do ar enchendo as bolhas de sabão que refletem todas as cores do mundo.
Foi ali que, pela primeira vez, fechando os olhos diante do sol, também senti a variação. De olhos fechados, vi também todas as cores. Coisa à toa que muito me fascinava era passar a mão pela chama da vela, ou cobrir a luz da lanterna com a mão. Surgia uma mão vermelha repleta de veias, imagem que denunciava qualquer coisa de mim mesma da qual nunca tive controle. Já pensei que pudesse ser a assinatura de deus, mas realmente não acredito num deus que permita tanto sofrimento a quem quer que seja. Embora eu desconheça a causa primeira, sei que o reino perdido nunca existiu e que Pandora não tinha coisa alguma para guardar na caixa, mas foi tão pornográfica a constatação do vazio da caixa, que se fez a loucura.
Mas, a espuma do córrego é imanente ao cheiro, é estéril, recorda a morte e a reprodução ao mesmo tempo: a morte pela putrefação e decomposição e a vida também por esses elementos, posto que há os organismos que se multiplicam na morte, os vermes, micróbios e o que seja. Eles são ativamente transformadores da realidade em matéria, não cessam de consumir tudo que foi abandonado, ignorado. Eles transformam o que ousamos ignorar, denunciam a existência do que deliberadamente abandonamos no leito do rio negro. Nesse aspecto, a espuma do rio é tão pornográfica como o vazio da caixa de Pandora e a loucura sintetiza o vazio como esses organismos sintetizam a matéria.
(Há também as cores na putrefação e decomposição. Há o colorido do bolor. Cores descobertas e combinadas à moda do pintor em sua obra. A matéria morta é colorida e é vida ao contrário, porque é vida que não nos interessa.)

H

Kundera, Milan.1982

(Tinha vontade de telefonar para Sabina em Genebra, de entrar em contato com uma das mulheres de Zurique que conhecera nos últimos meses? Não, não tinha a menor vontade. Sabia que no momento em que se encontrasse com outra mulher, a lembrança de Tereza lhe causaria uma dor insuportável.)


“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

Abril 2009
S T Q Q S S D
« Mar   Jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  

Olha só meu mais novo pecadinho!