Escuta o barulho do vento, vai!

Te levei pela mão na grama-lama molhada, foi pra te sentir com o pé lambido por deus. Foi pra te causar certo arrepio que te passei pela terra molhada, língua-com-língua, osso-com-osso tutanado encharcado de cousa que o valha. Por teus cabelos, sorrisos, brincadeiras, foi pelo teu ataque de asma, na falta de ar, na bombinha vazia na mochila junto ao caderno de toda poesia barata que te cochichavam no sonho e tu transcrevia, cru.
Ela pisoteava a grama verde e fresca e aquele lírio e rosa orvalhada. Ela pisoteava porque era tudo tão bonito e de coração quente e por estarmos a rodar de mãos dadas. Ela pisoteou e matou as plantas do quintal, por conta da perfeição que lembrava comercial de margarina. Ela era minha mais nova namorada “e foi justamente pra ela que eu escrevi o meu primeiro blues”. Puta que pariu, e aquela flor que ela carregou pra cima e pra baixo até enterrá-la em minhas mãos? E aquele chocolate no travesseiro! E aquela música batucada, saias e saias a rodar, éramos bem duas saias de chita no varal de sol quarado.
Escuta, e teve aquela vez na qual nenhuma nudez fora castigada. Tu me reaviva todas as minhas referências e eu podia dedicar toda a programação radialística pra ti, de Dorival Caymmi a Genival Lacerda. Perceba a sobreposição que te transforma na língua encharcada de lama sobre meus ossos, ao passo que teus cabelos se enroscam nos meus e toda nossa sinestesia que se transforma em suor e…
Sim, eu me entristeci. Anjo, tu caíste, não foi? Por que ainda vestes a auréola entortada e me instiga a essa composição descompassada e sem concordância verbal e pronominal? Nunca te pediria para cumprir suas promessas, mas implorei que não as fizesse.
Ela pisava por debaixo das rosas, onde havia merda adubando a terra. “Pisou na merda? Então abra os dedos!” Ela ria de cigarro aceso por entre os lábios, toda ela libido e merda, toda ela…
Mas, como mesclar imagens tão bonitas? Mas, que fazer se elas me vêm ao mesmo tempo? Como na noite daquela flauta-instrumento indiano. Que porra era aquela? Puxa, mas era tão bonito. Ele: mistura de Benedito Calixto com Tom Zé.
Óquei, tu já me advertiu que tem vezes que fico tão ininteligível que todas essas linhas podem ser qualquer um, desde aquele com quem montava o cavalo na infância e me agarrava para não cair, morrendo de medo, como pode ser aquele… Escuta, não é medo de dar nome aos bois, tu bem sabes. É que são matérias que se misturam mesmo. Às vezes, eu até registro aqui para não esquecer que aconteceu de verdade. Sério. Olha, eu não vou me importar com qualquer mal entendido que isso provoque. Por mais que depois, no corredor da faculdade me inquiram: Escuta, a moça do gramado, quem era? É que achei a descrição tão… Precisa…
Mas, se era precisa, por que me questiona o nome da moça? Ca-ce-te.
Bom, vamos para um daqueles dias nos quais acordávamos juntos. Quê faremos de almoço? (caralho, hoje no ônibus, parece até que eu preciso é aprender a moral da história, porque certa sensação é tão recorrente…). Daí íamos caminhando ao mercado, comprávamos o almoço. Eu assistia a TV e fazia piada de tudo o que passava (como na vez do comercial de lingerie, você me olhou com olhos infantis por baixo dos óculos e barba e disse: “Por que você não é igual a elas?” Eu quase pensei em trocar todas as minhas calcinhas e comprar desses ventiladores industriais só pra tu ver do quê que um bocado de direção-de-arte-produção é capaz!). Eu cantava, narrava tudo bem alto, até que você vinha com o prato de macarrão feito, suco e tudo mais e comíamos, tomávamos… No cu.
Mentira… Eram tempos felizes, mas hoje eu não perco a piada por nada. “Hoje nada me acalma”.

H

4 Respostas para “Escuta o barulho do vento, vai!”


  1. 1 Yane Março 11, 2009 às 1:55 pm

    Imaginei o desenho no gráfico, a trajetória da bola lançada e depois caindo, o abismo, o abismo.

  2. 2 Juliana Cruz Março 12, 2009 às 3:46 pm

    nao sei pq, mas nao me surpreende. nada disso. nada do dito. nada do feito. nada.

    quanto a forma como transcreveu o que sente, parabens. mesmo. ficou lindo. mesmo com o caralho perdido.

  3. 3 Marilia Santos Março 17, 2009 às 2:51 pm

    Todos os seus textos são lindos.
    Consigo me tranpostar com tanta facilidade.

    Páro e penso, em quem ela pensava enquanto formava essas palavras?
    foi com alegria? tristeza? melancolia?

    Na verdade é vc…
    vc em todas as linhas…

  4. 4 Tatati Março 19, 2009 às 6:27 pm

    Gosto da simplicidade das coisas…

    “Ela ria de cigarro aceso por entre os lábios, toda ela libido e merda, toda ela…”

    “Eu cantava, narrava tudo bem alto, até que você vinha com o prato de macarrão feito, suco e tudo mais e comíamos, tomávamos… No cu.”


Deixe uma resposta




“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

Março 2009
S T Q Q S S D
« Fev   Abr »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Olha só meu mais novo pecadinho!