Pense numa moça que rasgava a roupa do corpo quando nervosa, era criança e também arrancava os cabelos e retorcia as mãos assim, assim…
Balançava na rede e gritava-chorava, lágrimas iam e viam, gorfava até não poder mais. Ninguém sabia o que fazer com ela.
Pense, que sempre batia à porta a Cumade He-He-He, pedia tudo o que podia, começava por um pinto, depois o cuentro, a pimenta, a panela, o sal… Até que montava sua janta.
A moça chorava e chorava e se atracava com o irmão, dos 7 aos 49 anos. Só que daí virou caso de polícia e a família se horrorizou quando ela foi registrar boletim de ocorrência. Ficaram mais afetados do que quando ela perdeu a consciência e não queria voltar mais. Foi tanta benzedeira pra fazer a moça-mulher falar de novo, voltar a enxergar o que havia em volta. Mas, do nada ela voltou a si, depois de muito tempo.
Foi dona Chica Maricota quem ficou cega e fazia seu próprio sabão, virava-se sozinha, todas as crianças tinham medo dela, além envelhicida…
Tinha manga e poeira e quando se comia a manga e limpava a mão nas próprias roupas, ficava uma mancha seca, camada grossa de poeira e era esta a cor de todo o lugar.
Pense nas noites com todos numa grande sala, à luz de lamparina, cigarro de palha, conversas intermináveis, café preto e tapioca. Crianças só podiam era espiar, se quisessem participar. O sol se punha e já era hora de estender a rede, sem bagunça.
O banho tinha de ser no meio da tarde, não se sabe se era 14h ou 16h mas, não tinha por que se saber isso. Cabaças na mão, sabão, os homens pro rio de cima, as mulheres pro rio de baixo. Água gelada, limpa, bate roupa na pedra, lava cabelos com sabão, segura a criança pra não escorregar. Junta tudo e sobe todo mundo junto, trouxa na cabeça, segue rápido que a janta vai ter que sair.
Rapa mandioca pra fazer farinha, deixa secar. Não pisa na pedra do inhame.
Pega limão no pé e vai no canteiro pegar todo resto. Quantos ovos saíram hoje no galinheiro? Pega manteiga da terra e mistura a carne seca, de modos que tudo o que tiver, vai render.
Garapa boa mas, se tomar muito, dá dor de barriga. O mastruz com leite, era para ser bebido mostrando contragosto, contendo o gozo, porque os primos todos detestavam e eu não podia ser diferente.
Outro dia, a Neta tentou fazer pipoca naquele fogão de duas bocas e foi tanta pipoca que caiu por todo lado, pulando, derrubando tampa de panela e eram tantas, tantas…
Quando segurava na cintura do Rogério, nós dois montados no burro Melado, era medo tão grande e era também amor, era cheiro de moço forte e roça, a cela machucava, ralava as minhas pernas, era tudo misturado e eu só queria ficar ali pra sempre. Vontade de esporar o burro pra ele me levar pra qualquer lugar tão sagrado quanto aquele, tão profano quanto aquele, tão verdadeiro e vivo…
Hora de ir ao banheiro era das mais tristes. Pegava-se o sabugo de milho, um mato traquilo mas, os porcos já te seguiam de perto e até demosntravam impaciência enquanto se ficava de cócoras forjando algum sossego. Ao levantar, andava-se de volta à casa sem olhar para trás mas, mesmo que se tampassem os ouvidos, era possível ouvir de longe os porcos se deliciando… Eita!
De manhã, tinha também coalhada, fuligem do fogão à lenha, caneca esmaltada, castanha queimada. Quebrei o vaso de barro com o qual brincava mais as bonecas da minha madrinha, mais uma espécie de fruto de casca grossa que eu quebrava e desmanchava o conteúdo, um desses “frutos” atraentes era urucum, que deixava minhas mãos vermelhas, o outro tinha qualquer coisa amarela dentro, que eu também desmanchava com a mão e juntava água, terra, milho, pedaços de pano eram rede das bonecas, objetos de madeira…
Acordava-se orvalhado, pegava a caneca de alumínio, o pote d’água ficava do lado de fora da casa, escovava-se os dentes com pasta mesmo, ora bolas!
A noite cheirava a querosene da lamparina e tinha Curupira também.
Híndira