Arquivo para Junho, 2008

Qualquer semelhança…

“Como às vezes não consegue dormir, em vez de contar carneirinhos responde mentalmente a correspondência atrasada, porque sua má consciência tem tanta insônia quanto ele. As cartas de cortesia, as apaixonadas, as intelectuais, uma a uma ela as vai respondendo de olhos fechados e com grandes rasgos de estilo e vistosos enredos que o agradam por sua espontaneidade e eficácia, o que naturalmente multiplica a insônia. Quando adormece, toda a correspondência foi posta em dia.

Pela manhã, claro, está liquidado, e para piorar tem de se sentar e escrever todas as cartas pensadas durante a noite, cartas que saem muito pior, frias ou trôpegas ou idiotas, o que faz com que nessa noite também não possa dormir devido à fadiga excessiva, além do que lhe chegaram novas cartas de cortesia, apaixonadas ou intelectuais, e Lucas em vez de contar carneirinhos se põe a respondê-las com tal perfeição e elegância que Madame de Sévigné o teria aborrecido minuciosamente.”

De Júlio.

Tudo num único lugar

Pense numa moça que rasgava a roupa do corpo quando nervosa, era criança e também arrancava os cabelos e retorcia as mãos assim, assim…
Balançava na rede e gritava-chorava, lágrimas iam e viam, gorfava até não poder mais. Ninguém sabia o que fazer com ela.
Pense, que sempre batia à porta a Cumade He-He-He, pedia tudo o que podia, começava por um pinto, depois o cuentro, a pimenta, a panela, o sal… Até que montava sua janta.
A moça chorava e chorava e se atracava com o irmão, dos 7 aos 49 anos. Só que daí virou caso de polícia e a família se horrorizou quando ela foi registrar boletim de ocorrência. Ficaram mais afetados do que quando ela perdeu a consciência e não queria voltar mais. Foi tanta benzedeira pra fazer a moça-mulher falar de novo, voltar a enxergar o que havia em volta. Mas, do nada ela voltou a si, depois de muito tempo.
Foi dona Chica Maricota quem ficou cega e fazia seu próprio sabão, virava-se sozinha, todas as crianças tinham medo dela, além envelhicida…
Tinha manga e poeira e quando se comia a manga e limpava a mão nas próprias roupas, ficava uma mancha seca, camada grossa de poeira e era esta a cor de todo o lugar.
Pense nas noites com todos numa grande sala, à luz de lamparina, cigarro de palha, conversas intermináveis, café preto e tapioca. Crianças só podiam era espiar, se quisessem participar. O sol se punha e já era hora de estender a rede, sem bagunça.
O banho tinha de ser no meio da tarde, não se sabe se era 14h ou 16h mas, não tinha por que se saber isso. Cabaças na mão, sabão, os homens pro rio de cima, as mulheres pro rio de baixo. Água gelada, limpa, bate roupa na pedra, lava cabelos com sabão, segura a criança pra não escorregar. Junta tudo e sobe todo mundo junto, trouxa na cabeça, segue rápido que a janta vai ter que sair.
Rapa mandioca pra fazer farinha, deixa secar. Não pisa na pedra do inhame.
Pega limão no pé e vai no canteiro pegar todo resto. Quantos ovos saíram hoje no galinheiro? Pega manteiga da terra e mistura a carne seca, de modos que tudo o que tiver, vai render.
Garapa boa mas, se tomar muito, dá dor de barriga. O mastruz com leite, era para ser bebido mostrando contragosto, contendo o gozo, porque os primos todos detestavam e eu não podia ser diferente.
Outro dia, a Neta tentou fazer pipoca naquele fogão de duas bocas e foi tanta pipoca que caiu por todo lado, pulando, derrubando tampa de panela e eram tantas, tantas…
Quando segurava na cintura do Rogério, nós dois montados no burro Melado, era medo tão grande e era também amor, era cheiro de moço forte e roça, a cela machucava, ralava as minhas pernas, era tudo misturado e eu só queria ficar ali pra sempre. Vontade de esporar o burro pra ele me levar pra qualquer lugar tão sagrado quanto aquele, tão profano quanto aquele, tão verdadeiro e vivo…
Hora de ir ao banheiro era das mais tristes. Pegava-se o sabugo de milho, um mato traquilo mas, os porcos já te seguiam de perto e até demosntravam impaciência enquanto se ficava de cócoras forjando algum sossego. Ao levantar, andava-se de volta à casa sem olhar para trás mas, mesmo que se tampassem os ouvidos, era possível ouvir de longe os porcos se deliciando… Eita!
De manhã, tinha também coalhada, fuligem do fogão à lenha, caneca esmaltada, castanha queimada. Quebrei o vaso de barro com o qual brincava mais as bonecas da minha madrinha, mais uma espécie de fruto de casca grossa que eu quebrava e desmanchava o conteúdo, um desses “frutos” atraentes era urucum, que deixava minhas mãos vermelhas, o outro tinha qualquer coisa amarela dentro, que eu também desmanchava com a mão e juntava água, terra, milho, pedaços de pano eram rede das bonecas, objetos de madeira…
Acordava-se orvalhado, pegava a caneca de alumínio, o pote d’água ficava do lado de fora da casa, escovava-se os dentes com pasta mesmo, ora bolas!
A noite cheirava a querosene da lamparina e tinha Curupira também.
Híndira

Para quem já ouviu (ou não) eu cantar esta:

Por causa de você,
não uso mais batom
rasguei meu short curto
diminuí meu tom
Troquei os meus amigos
por alguém que
só me arrasa
Por causa de você,
não posso mais
entrar em casa
Por causa de você,
perdi minha liberdade
te entreguei minha vida
só fiz tua vontade
Briguei com o mundo
larguei tudo,
eu não olhei pra trás
e agora vem você me
dizendo que não quer mais

É ou não é pra chorar,
É ou não é pra
Diz você…
É ou não é pra chorar,
Quando alguém não sabe amar

É ou não é pra chorar,
É ou não é pra
Diz você…
É ou não é pra chorar,
E se coloca em meu lugar

O que é o amor eu não sei…
Sinceramente já pensei…
Sinceramente eu não sei…
Pra que tenho coração…

O que é o amor eu não sei…
Sinceramente já pensei…
Sinceramente eu não sei…
Pra que tenho um coração…

H

E tenho dito!

Postulado:

Avida é simples.

Híndira

Exposição pública

Ela me ligou dia desses:

- Ei, Bobby, está tudo bem?

- Sim, sim, tudo ok, babe. O que você manda?

- É só isso mesmo, queria saber como você está.

- Oh, babe, não se preocupe. É difícil derrubar o velho aqui.

- Então está tudo bem?

- Isso.

- Qualquer coisa me procure, se quiser conversar. E não beba demais, por favor. Um beijo e seu cuide.

- Você também, babe.

Ontem à noite ela apareceu na festa na casa do Steven com aquele outro cara lá. Eu havia bebido umas a mais e quando eles entraram, olhei para eles e me ajeitei no tamborete. Mike, que estava do meu lado, pôs a mão no meu braço.

- Calma, Mike, está tudo bem. Não vou armar um escândalo. Está tudo bem. ESTÁ TUDO BEM! – Então me levantei e uma tonelada de caras vieram me segurar, os dois ficaram de longe, e eu agindo dali, do meu pedaço, os caras me segurando e eu dizendo: – EI, SEU MERDA, CUIDE BEM DELA, OUVIU? – Eu apontava bem para ele e juro, via o cara tremer. – ELA É UMA GAROTA DECENTE E EU CONHEÇO BEM OS DA SUA LAIA! SE VOCÊ MAGOÁ-LA, EU JURO POR DEUS QUE VOU TE BUSCAR NO INFERNO, VOU CHUTAR O SEU TRASEIRO ATÉ O MISSISSIPI, SEU SACO DE MERDA.

Isso tudo com uma garrafa aberta de uísque na mão, sem derramar uma gota. E com uma tonelada de caras me segurando. Depois me acalmei um pouco, foram me liberando. Ajeitei a camisa dentro das calças, exercitei meu pescoço. Fiz uma pose ligeira, como se fosse Bill Hickhock durante um duelo contra o xerife e mandei:

- E QUER SABER TAMBÉM? OS PEITOS DELA JÁ ESTÃO CAÍDOS MESMO!

Yane Santiago é apenas um plágio de Bob Finger

Ah, vá pá porra!

E se eu:
Excluir meu Orkut?
Cortar meu cabelo?
Ir para lugares diferentes?
Fazer um novo curso?
Ler O Monge e o Executivo?
Viajar?
Parar de sair de casa?
Não usar mais celular?
Fizer terapia?
Terminar com ele?
Mudar de graduação?
Prestar concurso público?
Parar de beber?
Parar de fumar?
Parar de tomar refrigerante?
Parar de me relacionar sem sentido?
Parar de vê-los?
Parar de procurá-los?
Parar de querê-los?
Parar de parar?
Pagar minhas dívidas?
Comprar um tênis?
Tomar estriquinina?

Híndira

IÊQUETINGUELEGUELÊ

Não sei exatamente quando a mágoa é afixada na memória e nunca ninguém me respondeu isso. Parece que um dia se acorda e lá está: não há como não olhar para João sem sentir um mal estar, o estômago remexido, os músculos rígidos, o olhar não se fixa… Argh!
Mas, estou preocupada com o João (ou Leda, não importa, essa porra de nomear dá nos nervos!). O cara já era bruto, sério, sisudo, fechado, pouco se sabia acerca de sua vida afetiva. Sempre foi engraçado e yada yada mas, é daquelas figuras que você pode conviver por anos e jamais saber se ele está feliz no namoro ou não, por exemplo.
Daquelas pessoas que conseguem ficar em evidência sem serem vistas. Como se ele usasse aquela máscara verde do filme (a referência é péssima mas, todos os filmes de comédia me lembram ele, aqueles mais pilantras de luta também).
Tenho a impressão de que nestes últimos 26 anos, ele só ouviu os mesmos cds, desde os 16.
Tudo isso pra comentar que acho que o cara está doente e que não sei como lidar com isso. Amargurado pra caralho e doido pra ferir quem está por perto.
Ok, ok mas, onde entra o meu culhão? Bom, sim, eu o decepcionei. Ele contava comigo para um negócio (The fuck business, right?!), comigo e com mais um pessoal aê e todo mundo deu pra trás. Resultado: ele manda todos se foderem de graça.
Sabe a tal música “ele não pôde se entregar e agora vai ter de pagar com o coração”?
Mas, são dessas coisas que pedido de desculpas não emenda, não faz leite azedo ficar bom novamente, dessas coisas que não tem volta não…
Quem disse que só não se dá jeito pra morte? Puta que pariu…
A idéia da confiança que não se refaz é só uma idéia de uma idéia. A confiança é uma idéia e a idéia de que ela não se refaz… Bem, é roupa que já não me cabe. Só que nestes últimos tempos tantas roupas não me cabem, que tenho andado pelada e pego friagem.
Tornar-se incomunicável é coisa triste. Dá idéia de que cada uma dessas pessoas que estão no catálogo de amigos são roupas que já deviam terem sido descartadas. Que putaria é essa: pensar assim é tão egoísta, ísta, ísta, que nem sei dizer.
Como se fosse uma lógica do útil e inútil, do consumo, consumir as pessoas até que estas se esgotem e se vai ao mercado comprar pessoas fresquinhas… Novo rótulo, nova fórmula e zás! As pessoas como somente meios para… Argh…
Acho que no, final das contas, estou broxada feito João e Leda. Desculpe rasgar assim mas, é que a impessoalidade tomou conta e coisas dessas não podem no momento serem cochichadas ao pé do ouvido do amigo…
Híndira

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“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

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Olha só meu mais novo pecadinho!