Arquivo para Maio, 2008

Pr’um samba – Egberto Gismonti

Só de documento
Carrego um coração
Que anda espiando
Procurando uma canção
Seja de lua, de morena
Ou de amor, eu ando
Falando mesmo francamente
Eu já estou descrente
Deste meu povo que já não entende
E basta um pouco de carinho
Um cavaquinho rouco
Uma flautinha, um violão
Pr’um samba

cuidado cuidado. deus vê.

só digo uma coisa: ruim é a onça que não me comeu.
e lá vai lá vai o pensamento percorrer velhas cartas encardidas. era um outro tempo, era uma outra vida. eram outros os desejos e medos. eu chorava e minha mãe vinha correndo, a água escorrendo da panela, a carne queimando, merthiolate no machucado do joelho. era um tempo sem cartas de amor ou despedidas.
sonhava com avenidas iluminadas, com prédios enormes, espelhados. de dentro do carro, o ar condicionado ligado, pensava em como seria a vida lá fora. supresa: a vida era como os romances de guimarães, como alguns poemas de drummond. “uau! a vida é um romance imenso e veja só: as pessoas são tão bonitas”. achava tudo tão bonito aos dez anos de idade, mas não era todo dia que podia suportar quando seus desenhos animados favoritos terminavam.
agora vagueia por aí sem saber ao certo em que canto se perdeu. “olha lá eu escondido no jeito daquela menina segurar o copo, no jeito que ela ajeita o cabelo atrás da orelha”. como se pudesse se ver caminhando de dentro do carro, o ar condicionado aberto.
sabe lá que sonhos tem. sabe-se lá se verdadeiramente dorme quando todas as luzes se apagam. há quem diga que não. há quem diga que ela cultiva insônias porque tem medo de algo extraordinário acontecer quando estiver dormindo. “eu tenho um sono muito pesado, sabe?”.
às vezes pressente qualquer coisa que começa a nascer no meio de seu umbigo. uma estranheza que vira dor no final de cada mês e deixa suas pernas doloridas, uma sensação que machuca seu ventre inteiro, mas que às vezes é um vazio estranho que sobe até o peito e sabe-se lá como explode. não sabe organizar as palavras, não sabe nunca o melhor modo de manter os livros na estante. não sabe sequer qual dos livros na estante lhe pertence.
sabe tão pouco coisa e ainda deseja gozar nos finais de semana de uma boa companhia e cachaça.

[ela ouve a campainha. sobressalto. com que palavras receber uma visita, uma promessa, uma mão que deseja apertar com força? pausa. sente seu corpo sentado na cadeira, sente que as pernas formam um ângulo reto em relação à cadeira. sente que as pernas se cruzam quando deseja. sente que é agora que tudo se inicia e lhe falta o verbo.]

que no princípio não era o verbo. era deus e sua força tamanha.

Gracinha.

Prólogo

O que pouca gente sabe, neguinho, é que Noel Rosa inventou o roque e mandava bem no free style. O coitado sempre ganhava um presente apenas – pelo Natal e pelo seu aniversário. Foda.

Mas era uma vez quatro amigos íntimos…

… e eles desejavam que o mundo virasse uma grande banana split. É. Eles queriam acabar com todo o sorvete do mundo. A empreitada não seria nada fácil. “E se os antidepressivos pararem de funcionar?” – perguntou um deles a outro deles. “Pruuu”.

E o plano era simples-simples. Até demais: um deles passava o café, enquanto outro fritava os ovos, enquanto o terceiro pegava metrô + busão e doava sua força de trabalho quarenta horas/semana e o último compunha o manifesto e a dança de comemoração. Eram confiantes. Otimistas. Até demais.

Só que chegou a Segunda Metade do Século XIX e o conto de fadas começou seu Ciclo de Decadência. Veio o Nonsense. Veio o Bicho Papão. Veio o Caetano Veloso dizer que um tapinha não dói e Pinóquio bateu o pé e disse que queria ser um menino de verdade, “é isso aê, quero ser geeeeeeeente” mas a Fada Azul, essa benfeitora mágica, essa putinha legendária, essa mocinha de tranças mexeu os dedinhos de um lado pro outro e disse “não, não, não, não”.

Rá. Nemvemquenumtem.

Sardinha

“Político gosta de sardinha e sabe por quê? Porque deixa esses ônibus tudo feito lata de sardinha.
Sardinha é boa, é peixe, é saudável. O prefeito gosta de sardinha e as sardinhas vão se espremendo dentro do ônibus, sem dizer nada, sem reclamar. Não reclamam porque peixe não fala. É…”
Gritou o cobrador do ônibus essa manhã.
Quis perguntar se ele era do sindicato e filiado a algum partido. Embora tenha me provocado à reflexão e me instigado pela iniciativa, as palavras me vieram como pregação de cunho pseudo-altruísta e forjadamente embebidas em cidadania.
Não se trata de descrença nas palavras ou em quem as pronuncia. Trata-se de perceber certo vício, inscrito no que conheço de mundo, que não sei se é sutil ou se me falta um tal embasamento para conhecer sua causa, embora já padeça com seu efeito. De modo que, quando alguém expressa crítica e indignação sobre algo que afeta o solitário coletivo do qual pertenço, sou invadida de náusea e se fosse dizer algo, no exato momento, seria “Vai tomar no cu!” ou “E o Palmeiras, hein?”
Sendo assim, não consigo afirmar se o meu desconforto é fruto de meu próprio vício (neste caso, deveras sutil ou imanente ao meu inconsciente) ou se é o externo-viciado a me desequilibrar.

Híndira

as janelas todas escancaradas, a luz invadindo cada canto do velho piso, as paredes geladas, o cheiro doce e enjoativa. fariam festa pra sua chegada ou seria recebida por um grande silêncio?

ela desejava que seu nome fosse cidade.


“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

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Olha só meu mais novo pecadinho!

Pega essa!