A moça não passava de uma fotografia, por mais que Roberto tentasse senti-la sinestesicamente. Os pés desnudos, o cheiro do cabelo, o tom da voz, tudo eram memórias, ele só não as tinha metodicamente organizadas na mente. Já não sabia dizer se a calcinha bege dos 101 Dálmatas era da Simone, se o esmalte azul- turquesa era da Bruninha. Se quem tinha feito aborto foi a Manoela e se foi ela mesma quem marcou os pulsos com seu aparelho de barbear no Natal. Qual foi mesmo a que passou no concurso público em Campinas mas, não foi por causa dele?
Roberto olhava a ruiva a espera de que ela o visse, para que ele pudesse se aproximar e pedir desculpas por ter deixado Daniela chorando e nunca ter se importado por ela ter perdido 13 quilos de apego pela vida. Por nunca ter retornado às ligações da Sheila, mesmo quando ela deixava gravado na secretária eletrônica a música que ele já não lembrava mas, ela dizia ser deles. Queria se redimir por não ter contribuído com sua parte no pagamento do último aluguel antes da separação definitiva, porque já estava saindo com outra moça e não deixaria de ir ao show daquela banda de passagem no Brasil. Ou daquelas férias nas quais havia combinado toda a viagem, comprado o vinho, juntado dinheiro… Ela até negociou com o patrão e conseguiu remarcar sua saída da empresa para fevereiro, até tingiu os cabelos de castanho… Por que ele não cumprira a palavra naquela vez?
Queria, antes de mais nada, pedir desculpas à desconhecida e ela sabia disso. Ah, se sabia! Estava escrito na testa dele. O infeliz trazia nos ombros, no semblante e na pele queimada de sol todas as culpas que um bom cristão pode carregar. Não há gastrite que sirva como o chicote feroz do senhor, a fogueira do inquisidor ou a caneta do gerente do banco. É preciso sentir-se culpado, cas-ti-ga-do para a tal purificação. Passar pela ressaca pra beber novamente, aliviar o pigarro com bala de menta pra poder fumar outro cigarro. Dar um tempo na frente do computador pra se servir de mais lasanha. Tomar um banho meia boca pra dar outra antes que o pernoite acabe (“Vai um detergente pros cabelos aê?” “Só mais um cigarro.”)…
Mas, será mesmo que tudo isso estava contido na fotografia que ele próprio imaginava ser para os outros?
Híndira