Arquivo para Abril, 2008

Ué. III

A moça não passava de uma fotografia, por mais que Roberto tentasse senti-la sinestesicamente. Os pés desnudos, o cheiro do cabelo, o tom da voz, tudo eram memórias, ele só não as tinha metodicamente organizadas na mente. Já não sabia dizer se a calcinha bege dos 101 Dálmatas era da Simone, se o esmalte azul- turquesa era da Bruninha. Se quem tinha feito aborto foi a Manoela e se foi ela mesma quem marcou os pulsos com seu aparelho de barbear no Natal. Qual foi mesmo a que passou no concurso público em Campinas mas, não foi por causa dele?
Roberto olhava a ruiva a espera de que ela o visse, para que ele pudesse se aproximar e pedir desculpas por ter deixado Daniela chorando e nunca ter se importado por ela ter perdido 13 quilos de apego pela vida. Por nunca ter retornado às ligações da Sheila, mesmo quando ela deixava gravado na secretária eletrônica a música que ele já não lembrava mas, ela dizia ser deles. Queria se redimir por não ter contribuído com sua parte no pagamento do último aluguel antes da separação definitiva, porque já estava saindo com outra moça e não deixaria de ir ao show daquela banda de passagem no Brasil. Ou daquelas férias nas quais havia combinado toda a viagem, comprado o vinho, juntado dinheiro… Ela até negociou com o patrão e conseguiu remarcar sua saída da empresa para fevereiro, até tingiu os cabelos de castanho… Por que ele não cumprira a palavra naquela vez?
Queria, antes de mais nada, pedir desculpas à desconhecida e ela sabia disso. Ah, se sabia! Estava escrito na testa dele. O infeliz trazia nos ombros, no semblante e na pele queimada de sol todas as culpas que um bom cristão pode carregar. Não há gastrite que sirva como o chicote feroz do senhor, a fogueira do inquisidor ou a caneta do gerente do banco. É preciso sentir-se culpado, cas-ti-ga-do para a tal purificação. Passar pela ressaca pra beber novamente, aliviar o pigarro com bala de menta pra poder fumar outro cigarro. Dar um tempo na frente do computador pra se servir de mais lasanha. Tomar um banho meia boca pra dar outra antes que o pernoite acabe (“Vai um detergente pros cabelos aê?” “Só mais um cigarro.”)…
Mas, será mesmo que tudo isso estava contido na fotografia que ele próprio imaginava ser para os outros?

Híndira

conto inacabado #841

As mocinhas de lilás sentam-se.

“Éramos amigos e nos tornamos estranhos. Mas é bom que assim seja, e não procuraremos dissimulá-lo ou ocultá-lo, como se disso devêssemos nos envergonhar. Tal como dois navios que seguem cada qual seu caminho e seu fim próprios: assim sem dúvida poderemos nos cruzar e celebrar festas entre nós como já o fizemos – e então os bons navios descansavam lado a lado no mesmo porto, sob o sol, tão calmos que se diria já terem alcançado seu fim e sempre terem tido o mesmo destino. Mas logo depois o apelo irresistível de nossa missão nos arrastava novamente para longe um do outro, cada qual por mares, por paragens, sob sóis diferentes – talvez para nunca mais nos vermos, talvez também para nos vermos uma vez mais, mas sem nos reconhecermos mais: mares e sóis diferentes devem ter-nos mudado!”

Quero interromper a conversa num dado momento e falar desta imagem que me surge. É apenas uma citação de Nietzsche que li recentemente num livro interessantíssimo. Não é apenas uma citação de Nietzsche que li recentemente num livro. É mesmo a imagem de uma angústia. Mas como é que a gente se levanta de uma poltrona, no meio de uma festa lotada, o copo de cerveja já quente na mão pra dizer uma citação, como quem simplesmente se lembrou que havia esquecido de comentar que? Como é que a gente se expõe desta maneira? Como é que a gente que deseja ficar bem quietinho, só observando, levanta a mão pra escancarar um trauma recém-descoberto? Como é que a gente explica pra pessoas tão queridas que nossa fraqueza é na verdade a realização de um grande projeto? Como é que a gente esboça um sorriso com a cabeça latejando de imagens cortantes?

Ué. II

“Mas, aquela ruivazinha na estante três…”
Ligeiramente mais alta que ele, esguia e exótica. Ainda não era Suzana mas, tinha a aura virginal de não ser nenhuma das outras. Ela não sabia ainda de seus conhecimentos musicais, nem dos vários corações partidos (por ele?), nem mesmo das histórias mal contadas e dos lapsos de memória. Ela não fazia idéia de suas noites de mesas cheias e nenhum amigo, dos cigarros acesos de par em par ou do coração quente com a melodia mais bonita tocada ao fundo, ou melhor, ao centro, que é onde toda boa música tem lugar. Desconhecia inclusive a noite de vitória no pebolim e o esboço de sua melhor composição guardada no criado mudo.
“A ignorância é uma benção!” Nunca esta frase lhe caíra tão bem. A pele branquinha da moça, cabelos lisos e vermelhos. Estava lendo atenta um exemplar, como se já lhe pertencesse, como se já tivesse saído da livraria com ele e estivesse à beira da cama folheando, sem pressa alguma. Roberto também a observava como se já fosse sua, com aqueles olhos verdes e o ritmo que regia as batidas do pé no chão. Todo aquele 1,76 m de distração já lhe pertencia com todas as tatuagens, espalhadas pela pele como as suas, chagas que marcam sua trajetória pelos tempos de todas as eras, imagens acumuladas e desbotadas.
Será que ela adivinhava aquela perícia da qual estava sendo objeto? Era com simulada indiferença que molhava os lábios e lia para si palavras aleartórias daquele livro? A impressão era de que o livro poderia estar de cabeça para baixo porque, assim como a música imaginária que ela marcava o compasso com os pés presos na sapatilha de pano, ela podia cochichar as palavras que quisesse. Podia estar sussurrando trechos do livro, bem como, dizendo “decifra-me ou te devoro”, “o produto equivale à soma dos reagentes”, “preciso espancar um dromedário” e qualquer outra coisa.
Distraída ou não, seu corpo estava sendo estudado por Roberto e não era com dificuldade que ele imaginava aqueles pés descalços, já podia sentir o cheiro dos cabelos culposamente avermelhados.
Ela sabia que ele sentia culpa? Com este pensamento, Roberto parou de salivar.

Híndira


“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

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Olha só meu mais novo pecadinho!

Pega essa!