” – Mas, você não está namorando… Apaixonado?
– Veja: a Vivi levou a minha alma mas, o meu pinto ficou comigo.”
Arquivo para Março, 2008
Roberto se sentia sendo visto, admirado e desejado. Já não usava as roupas de antes, já não se sentia esmagando ninguém no transporte público e não tinha vergonha alguma de retribuir qualquer olhar que nele se depositasse.
A descoberta do falo rendeu-lhe vários encontros, era a tal da “carne nova”, sede de sentir, vontade de “passar por ali”.
Depois de tantos sóis e luas, lembrar que mal conhece qualquer parte do próprio corpo causa um misto de empolgação, curiosidade e mesmo vergonha. Roberto se sentia inexperiente e inferior aos demais porque não sabia ainda tudo o que poderia “gozar da vida”. Sentia-se como um objeto semi-novo, que não é totalmente aceito nem pelos que amam novidades e tampouco pelos colecionadores de antiguidade.
“Uma meia-bomba.”, pensava.
O ex-gordo não deixava mais corpo algum passar, comparava-se com tudo o que parecesse ser um exemplar de sua espécie, fosse em carne e osso ou virtualmente, em capa de revista, no banheiro público e na sala de reuniões do trabalho.
Era como se o mundo fosse feito de carne e secreções e as paredes o interpelassem: E aí, qual é a boa?
A verdade é que ele não sabia qual era a boa. Nem a má. Mais uma vez o torpor adormecia seus músculos e seu interesse por biografias também estava amortecido.
Não queria mais ouvir as canções de sempre, nem rememorar as passadas, tampouco conhecer as novas. Era tal qual um músico sem repertório. Muito mal, lançara um álbum que poderia ter sido um sucesso, não fosse a inabilidade de fazer propaganda e consolidar parcerias.
Reduzido também o seu prazer de glutão, já não comia mais a mesma quantidade. A gula que antes aplacava a ansiedade, agora podia lhe causar mal estar dos piores.
“Que diabos um ansioso pode fazer por aqui?” Sem literatura, música ou comida. Bebida e cigarros? Mas, isso já fedia à quinquilharia. Aquela mistura de fumaça e álcool só lhe fazia recordar o Chevette vinho da porta amassada que o conduzia ao parque ecológico nos domingos de pai e mãe, macarronada, frango cozido, refrigerante e Fagner no toca-discos. Nada envolto por ar fraternal ameniza ansiedade.
Híndira
Suzana e Roberto se encontraram por acaso, na livraria. Não notaram a presença um do outro, embora os dois vivessem a gritar por socorro. Seus rostos, seus corpos e tudo mais que pudesse ser percebido era manifestação de desespero.
“Mostre-me!” Eles diziam de si para si por entre as prateleiras daquele ambiente silencioso feito a morte.
Roberto estava na sessão de biografias. Gostava de saber que alguém que havia se fudido muito na vida, pudesse se dar bem de alguma forma. Pensava que as personalidades retratadas nestes livros nunca correspondiam à pessoal real mas, ainda assim, era bom de se ler.
Ao mesmo tempo que folheva livros e livros, dava-se conta dos corpos ao redor, das diversas silhuetas. Reparar nisso tornou-se mais intenso desde quando se tornou um ex-gordo.
Quando era gordo, sua relação com o corpo era feita de volumes. Tinha muita pele por todo lugar, onde ele espalhou várias tatuagens. Dentre pêlos, estrias e tatuagens, Roberto gostava sobretudo de seu umbigo, era o seu ponto de ligação com si mesmo. Reparava como em alguns tempos ele se afundava mais na gordura, outros tempos era mais saliente. Quando comia, imaginava que a comida estava passando por ali, se pudesse teria colocado um tubo ou qualquer coisa do gênero no lugar de seu umbigo, tinha esta imagem forte na mente.
Mas, de repente, com a mudança do corpo, as medidas menores, menos volume e espaço ocupado, Roberto voltou suas atenções para o seu falo, coisa para qual só deu atenção na sua infância, quando tinha fimose. Depois da operação esqueceu que tinha pênis.
Há uma situação de sua vida que evidencia o tal esquecimento: não eram raras as vezes em que esquecia de penetrar a pessoa com quem estava transando. Ele fazia todas as preliminares, de cabo a rabo, fazia tudo o que pudesse com boca, dedos, cabelos, tendões e o diabo a quatro. De repente, dava-se conta da ansiedade da pessoa com quem estava, misto de excitação e impaciência. Percebia uma apreensão, quase uma violência no modo como seu genital era conduzido para o corpo do outro. Finalmente se lembrara que “ainda havia esta parte”.
Híndira
Lembro-me de vocês quando entristeço.
Quando fico feliz, esqueço de quem eu sou.
Ou seria o contrário?
“Recusado por duas bailarinas de verdade, Nelson poderia ter se dedicado à alternativa mais próxima: as garotas do teatro de revista, como faziam os seus amigos. Não tinha dinheiro para os ingressos, mas, como jornalista, podia entrar e sair até dos camarins. No palco, sob luzes coloridas, ao som da orquestra e com alguns palmos de pele estrategicamente à mostra, elas eram uma tentação. Mas, vistas de perto, eram um festival de varizes, estrias, celulites, cicatrizes, marcas de vacina e roxos de pancadas. Algumas eram subnutridas a olho nu. Outras tinham pneus, culotes e banha à vontade. E por que não seriam assim? Quase todas eram do norte, algumas muito pobres; outras tinham sido comidas e abandonadas pelo namorado e, por isto, enxotadas de casa pelo pai. Sobravam para Nelson as grandes estrelas, mas estas já tinham seus coronéis, os homens que lhes davam palacetes no Flamengo e estação de águas em Caxambu.” (R. Castro, O Anjo Pornográfico)
“Eu ouvi um putz grila?”