ela vem pela avenida com aquele vestido que tanta raiva me dá, inclina a cabeça quando me reconhece e, se houvesse alguma coisa pra se dizer naquele momento seria: que bom que você veio por essa avenida.
Arquivo para Dezembro, 2007
ela passa por debaixo da linha d’água. Ninguém há de saber, ou há? Hmpf. O amor hoje é um outro. Acordei, desci as escadas, preparei o café. Você não estava. E houve uma leveza tão sem adjetivo nisso tudo, eu não tenho precisado. Ou, melhor. Eu tenho sim, como nunca, mas, ao mesmo tempo, meus olhos têm estado confiantes das fraquezas deles, da tranqüilidade deles. Eu sei, a morte tem rondado a casa, mas nunca parou mesmo, que fazer? Eu não sou um homem maduro, eu sei. Mas já nem mais pretendo. Eu não pretendo, compreende? Eu almejo sim, ainda, mas já sei disso e não quero mais. As suas fraquezas são tão bonitas. Eu só não gosto de como você é grande sem ser. Isso sim, me faz querer ir embora. E eu vou, você sabe. Vou mesmo. Olha pra você. Olha. Você não tem uma espada nas mãos. Não tem. Você é uma menina, eu sou um menino. Os adultos são os mortos. Eles caíram na armadilha de se pensarem prontos. Eles não estão, apenas jogam cabra-cega, com medo de lhe tirarem a venda e não haver ninguém na sala.
Porque não há ninguém.
Yanes Antiago
Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha
Sinhazinha
No balanço da cadeira de palhinha
Gosta de trançar seu retrós de linha
Como quem parece que adivinha (amor)
Será que ela quer casar
Será que eu vou casar com ela
Será que vai ser numa capela
De casa de andorinha
Princesinha
Moça dos contos de amor da carochinha
Gosta de brincar de fada-madrinha
Como quem quer ser minha rainha
Sinhá mocinha
Com seu brinco e seu colar de água-marinha
Gosta de me olhar da casa vizinha
Como quem me quer na camarinha (amor)
Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador
Ó prenda minha
Ó meu amor
Se torne a minha senhorinha
Esta expressão parece não definir coisa alguma. Geralmente ela é usada quando a pessoa quer justamente isto: empurrar com a barriga.
Significa deixar para lá, não pensar, deixar as coisas seguirem seu caminho sem uma aparente intervenção ou reflexão.
Vamos ver até onde isso vai dar, sem empregar esforço ou força alguma.
Muitas vezes, parece que o tronco todo do corpo é simplesmente uma barriga. São costas e barriga, se não se pensar muito em tudo que parece ter lá dentro. Nunca vi nada de lá de dentro mas, é provado científica-empiricamente que há um sistema complexo de qualquer coisa.
A barriga é a parte inteira da frente do corpo que empurra os indivíduos nos transportes públicos, afim de se conseguir passagem.
É uma expressão de tamanho torpor, que devia ser abolida.
Empurrar com a barriga pode ser qualquer coisa. Não é melhor dizer que não se pensou e não se quer pensar ou agir sobre determinada situação?
Ia dizer que o melhor seria não dizer nada mas, não é verdade.
Híndira
“Sentiu um acréscimo de estima por si mesma…”
Publicado Dezembro 18, 2007 [3] Entonces... 2 ComentáriosAcordou pensativo. A última conversa estava fresca na memória: ela e a mania de justificar-se, para si mesma. Mesmo que não comunicasse, mentalmente ela tentava organizar tudo, todas as suas ações numa cadeia de razões. Estendia isto para todo e qualquer evento, ação ou inércia.
Lembrou da justificativa para estarem naquele bar na noite anterior: ela faria uma escova no cabelo mas, preferiu gastar o dinheiro com bebida, porque a bebida lhe causaria maior bem estar. Escovando os cabelos, os teria escorridos e belos de forma diferente da natural, receberia alguns mesmos elogios e só. Bebendo, o prazer seria maior, sua moral otimizada, os assuntos durante a bebedeira são dos mais inusitados lugares-comuns. Enfim, tinha que ter ido por este lado e não por aquele, era sempre esta a conclusão.
O sol da manhã nunca parece esquentar, como quando se tem alguém querido longe por muito tempo e, de repente, ele se encontra sentado à mesa, bem próximo mas, frio como o sol da manhã. Para esquentar, é necessário um acontecimento que traga o frescor do vínculo aos olhos, é necessária a evidência do vínculo.
Decidiu pensar em mais metas, sempre mais e mais metas para preencher os dias, que pareciam idênticos desde quando acabou a adolescência.
Estava resoluto em manter o silêncio e também em dizer quando a comida estava ruim, porque, pelo que entendeu das aulas de Rousseau, liberdade e agir naturalmente significa poder dizer sem constrangimento, a quem quer que seja, que a comida está ruim, inclusive ao cozinheiro.
Então, não seria um silêncio passivo, só não haveria espaço para lamentações.
Não tentaria vomitar a comida, forjar uma desinteria, contorcer-se diante de todos para mostrar o quanto o alimento poderia ter-lhe feito mal. Não era isso, pelo contrário: era disto que queria ser livrar.
Reclamar da comida de forma branca. Nossa, ele não sabia ainda o que significava aquilo ou se teria de atribuir algum significado.
Pensou na dezena de lugares que sempre enxergava como sendo seus. Como era possível conceber como profana a idéia de propriedade privada, quando urinava por todos os lugares por onde passava, dando a alcunha de solo sagrado? Era como se todos os lugares que mais gostasse, fossem invadidos, terra devastada, crianças estupradas, armazéns saqueados. Pensar isto lhe causava dor tão grande embora fosse só uma idéia, era o molde onde havia colcocado seu mundo argiloso, lascivo e indolente. Então, por que sentir-se desse jeito, quando, o que parece ideal de ser apreendido pelo seu entendimento é isso: eu-não-te-nho-ter-ra-ou-lu-gar-sa-gra-do.
Território, brônquios e afetos livres.
Mas, ainda não estava claro para ele que esta noção de territótio deveria ser extinguida também no que tange às pessoas.
Pensou se, desta vez, conseguiria ser franco a ponto de deixar claro que não desejava a companhia dela, que não sairia para beber novamente com ela na próxima noite pois, não queria ouvir a sua voz. Mas, estas coisas, as mais fáceis de serem ditas no silêncio, ele não conseguia dizer.
Híndira
Caminhando para o trabalho, passei, como de costume, em frente à casa na qual reside um senhor que, aparentemente, tem a noção de si mesmo reduzida, para os olhos do vulgo. Digo deste modo pois, para mim, trata-se de alguém mais ciente de si que a maioria das pessoas que o julgam perturbado mentalmente.
Sempre que passo, escuto suas palavras: ele pensa alto, esbraveja ou diz coisas que não compreendo.
Mas, hoje foi completamente inteligível sua manifestação:
- Eu te amo! Eu te amo! Quer dinheiro? Tó! Tó! Eu te amo!
Jogou, em forma de mímica, notas e notas de dinheiro para o ar.
Híndira
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