Nada é autobiográfico. É importante que isto seja dito antes de pegar no sono, por frio, pelo uso do antibiótico ou por sono mesmo.
Ele me põe no colo e, acariciando meus longos cachos, canta Daniel na Cova dos Leões, imitando qualquer timbre de um Renato Russo. Mas, o cabelo é bem comprido e dá pra se emendar com qualquer outra música que seja Legião. Meus olhos ficam em seus olhos e não nos beijamos no fim, para meu desespero. Anos depois, ainda afirma que aquele beijo foi roubado.
A saia que uso é com velcro e ele a abre e fecha na rua, colada a àrvore, em plena tarde. Assim, desconheço meu corpo, enquanto minha mãe pensa que estou na academia. A estúpida música que diz: “Posso brincar de descobrir desenho em nuvens…Posso tirar a tua roupa, fazer o que eu quiser…”
O sundae vem com confetes de chocolate e minha língua e lábios brincam com eles, instantes antes de ele dizer que já não está mais comigo. Quer que eu encontre alguém legal e que eu mude meus cabelos. Anos depois, na embriaguez, chama minha mãe de sogra. Segundo minha amiga, um espírito disse que ele é o homem da vida dela. Deve ser mesmo.
Ele tem o sorriso que nem sei. O piercing no lábio inferior. Olhos atentos e mãos e bocas que não param de falar de tudo, como uma esponja, chupa o mundo, flui todo ele. Gostou do show do Chico. Nem imagina que foi meu segundo homem. Fotos, fotos, fotos; de “mãos do trabalho”, como ele mesmo diz. Um café preto e um beijo torto. A imagem de meias e cuecas na manhã mais fria do ano de chuveiro queimado.
Ele não sabe mas, não posso mirar diretamente seus olhos, é que derreto, não é desfeita.
Por mais que aqueles copos na mesa, vazios e solitários, sim… Eles sambaram pra lá e pra cá.
Você bem sabe, que esta noite será nossa e onde vai acabar. Mas, fingimos que não.
O ar mais blasé do mundo. Tento reparar se seus olhos são realmente esbugalhados como dizem mas, seu riso solto na boca vermelha não me deixa ver.
Cachos, cachos, cachos…
– Eu não vejo futuro pra gente.
– Gosto e não gosto de você.
– Mas, quanto paradoxo, Jesus!
– Não faz assim!
Faço.
Hind Fil Tel