Não posso mais suportar isso. Vou transformá-lo numa personagem que saberei, à minha moda, martirizar, isto é, Mignon-Pé-Pequeno. Ele ainda conservará seus vinte anos, embora seu destino seja tornar-se o pai e o amante de Nossa Senhora das Flores.
A Divina ele disse:
- Peço desculpas!
Cheio de vinho, Mignon não notou a estranheza do transeunte dono de uma gentileza agressiva:
- E aí, minha filha?
Divina parou. Uma conversa brincalhona e perigosa seguiu-se, e depois tudo se passou como se deveria desejar. Divina levou Mignon para sua casa, na Rue Caulaincourt. É a água-furtada onde ela morreu, de onde se vê sob si, tal qual o mar abaixo do vigia na gávea, um cemitério e os túmulos. Os ciprestes cantam. Os fantasmas dormitam. Todas as manhãs, Divina pela janela sacudirá o pano de pó e dirá adeus aos fantasmas. Com o auxílio de um binóculo, um dia ela descobrirá um jovem coveiro. “Deus me perdoe”, ela dirá “tem um litro de vinho sobre o caixão.” O coveiro irá envelhecer com ela e enterrá-la sem saber coisa alguma a seu respeito.
Portanto, junto com Mignon, ela subiu. Mais tarde, na água-furtada, a portas fechadas, ela o despiu. Tiradas as calças, a jaqueta, a camisa, ele pareceu branco e desmoronado como uma avalanche. À noite, se encontraram emaranhados nos lençóis úmidos e amarfanhados.
- Que bagunça! Ontem eu tava um bocado sonado, hein, garotão?
Ele riu amarelo e passou os olhos pela água-furtada. É um aposento em desvão. Sobre o soalho, Divina colocou uns tapetes surrados e pregou nas paredes os assassinos das paredes da minha cela e os fantásticos retratos de belos rapazes que ela furtou da vitrine dos fotógrafos e que carregam todos os sinais do poder das trevas.
- Vitrine, hum!
Sobre a chaminé um tubo de gardenal colocado numa pequena regata de madeira pintada é o suficiente para desprender o quarto do bloco de pedra caiada que é o prédio, suspendendo-o como uma gaiola entre o céu e a terra.
Pelo jeito de falar, de acender e fumar o cigarro, Divina percebeu que Mignon é um cafetão. Ela teve no princípio certos medos de ser espancada, roubada, aviltada. Porém, sentiu o orgulho de ter feito um cafetão gozar. Sem prever exatamente o que resultaria da aventura, e mais que voluntariamente, um pouco como um pássaro, digamos, entra pela garganta de uma serpente, fascinada ela disse: “Fique”, e hesitando:
- Se quiser.
- Podes crer, você parou na minha.
Mignon ficou.
trecho de Nossa Senhora das Flores, por Jean Genet