E A BARBÁRIE CONTINUA,
A PROJEÇÃO DO NOSSO MAL NO CORPO DE OUTREM.
Arquivo para Dezembro, 2006
por Critical Art Ensemble, considere o seguinte cenário:
Publicado Dezembro 31, 2006 [11] Baú do Raul 1 Comentáriouma pessoa [P] entra em um banco pensando em conseguir um empréstimo. De acordo com a estrutura dramatúrgica dessa situação, é necessário que a pessoa se apresente como uma candidata a empréstimo responsável e confiável. Sendo uma boa atriz, e sentindo-se à vontade no papel, P se vestiu adequadamente colocando roupas e jóias que indicam um bom nível econômico. P segue adequadamente os procedimentos para pedido de empréstimo, e utiliza boas técnicas de montagem, com os apertos de mão adequados, levantando-se e sentando-se de acordo com as expectativas sociais e assim por diante. Além disso, P preparou e memorizou um roteiro bem escrito que explica totalmente sua necessidade de um empréstimo, assim como sua capacidade de pagá-lo. Por mais cuidadosa que P seja em se ajustar aos códigos da situação, logo fica claro que sua performance em si não é suficiente para garantir o empréstimo. Tudo o que P conseguiu com a performance foi convencer o funcionário a entrevistar seu duplo eletrônico.
O funcionário levanta seu histórico financeiro no computador. É esse corpo, um corpo de dados, que agora controla o palco. Ele é, na verdade, o único corpo que interessa ao funcionário. O duplo eletrônico de P revela que ela atrasou o pagamento de empréstimos no passado, e que está envolvida numa disputa financeira com outro banco. O empréstimo é negado: fim da performance.
Esse cenário poderia facilmente ter tido um final feliz, mas sua importância real é mostrar que a performance orgânica era basicamente redundante. A realidade da pretendente era duvidosa. Sua imagem abstrata na forma de dados financeiros determinou o resultado da performance. A estrutura do palco, representada pela arquitetura do banco, foi consumida pelo teatro virtual. O palco da superfície da tela, apoiado pelos bastidores constituídos de bancos de dados e internets, mantém um privilégio ontológico em relação ao teatro da vida quotidiana.
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
” Carol,
Oi é o pedro, eu sento atrás do raul e fiz o trabalho de ciências, aqueles dos protozoários com a suelen, que senta do seu lado e é sua amiga não é? Então, eu gosto de você desde quando você estudava no 2ºB e a gente fazia educação fisica juntos, lembra? Então se você gostar de mim também a gente pode ser namorados.
se você aceitar eu te dou um pacote de 25 balas tutti-belo e um pacote de pirulitos que tem chiclets.
responde para a suelen na hora do intervalo tá!
pedro.”
“pedro eu não posso namorar com você porque eu estou namorando o gustavo. mas a gente vai terminar porque ele é muito grosso e brigou com a andreia que é minha melhor amiga. Ai depois eu falo para a suelen e a suelen te diz quando eu estiver sozinha.
um beijo
carol”
“carol, o gustavo disse para todo mundo na segunda aula que passou a mao nos seus peitos. eu acho que você devia terminar com ele. não diz que fui eu que te disse tá?
pedro”
“pedro, você é o melhor namorado do mundo inteiro! a gente vai ficar juntos para sempre não é?
pedro quantos filhos você quer ter?
te adoro +QD+!!
cá”
“pedro você é um grosso, canalha e ridiculo! Esta tudo terminado entre a gente ouviu bem? Eu te vi comprar um lanche para a cintia na hora do recreio e vc nem veio falar comigo! O que vc esta pensando? E bom entaum vc namorar com a cintia porque ela e uma gorda e vc é um ridiculo.
te odeio
carolina.”
“Carol,
O tá ligado a suelen que estudou com a gente na 3ª serie?? Então, dá um ligue, eu troquei idéia com o marcos do 1ºC e ele disse que ela tá querendo ficar comigo. Tem como vc agitar? Tô ligado que vc é mó amiga da mina, blz!
Ae valeu mesmo em carol.
Tá ligada que é nóis!
Periferia!
pedro
8ºD”
“
VAI TOMAR NO CÚ SEU FILHO DA PUTA!!!
SE ACHA QUE EU VOU DEIXAR A MINA DIREITA FEITO A SU, BEIJAR UM NOIA FEITO VC?? SE ENXERGA!
PS. AINDA Ñ ESQUECI O QUE VOCE ME FEZ PASSAR NA 3ª SUA BIXA FILHA DA PUTA!!!
PERIFERIA O CARALHO QUE VC É MÓ FILHINHO DE PAPAI!
TUA CHAPA TA NO FOGO FDP!
ASS. AS MINHAS DA D!”
Diogo Andrade
Namorou na 3ª série.
Tudo em tudo
Cada homem em todos os homens
todos os homens em cada homem
Todos os seres em cada ser
Cada ser em todos os seres
Todos em cada um
Cada um em todos
Toda distinção mente, é apenas mente.
Entre um e outro tem muitos.
E esses somos todos.
D.J. Wu Ming
Poesia eletrônica, Mixes e Ctrl+C
“Uma canção
De todas as cores
Vou cantar
Pra encantar
Os nossos corações
Uma canção
De todas as cores
Traz felicidade
Pra toda humanidade”
(autor desconhecido)
A lua e o sol se viam sempre, de relance.
Nunca se encaravam, não havia tempo.
O sol trabalhava na empresa de dia, saía exatamente no horário em que a lua entrava (esta ganhava adicional noturno)
Os dois apaixonados mas, ignorantes do sentimento um do outro.
As nuvens fizeram um esforço e aproximaram os dois no Amigo Secreto da empresa, na festa de final de ano.
Daí, rolou.
Após alguns goles e eclipses, várias estrelas surgiram para povoar o céu.
E eles viveram felizes para sempre, até o segundo sol chegar, realinhar as órbitas dos planetas.
O sol até hoje faz psicoterapia.
Híndira, filósofa e operadora de telemarketing.
ele exerce com afinco Os Três Rabiscos Coloridos em um papel canson. ergue ingenuamente Seu Esforço ao homem ao seu lado, cuja resposta – que me enche de esperanças – é:
- continue.
Yane Santiago