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Francisco Barros de Oliveira.
Não adianta jogar no Google. Não adianta.
Se jogar, pode ser que dê macaco-porco-águia na trinca. Mas, não adianta.

A Foto 3×4

Foi assim:

Estava toda de azul, um azul forte, escuro. Bermuda e blusa regata azul, cabelos soltos. Nos pés, devia ser qualquer coisa branca, um Ortopé…
Ele devia estar de camisa, calça jeans. Devia carregar uma bic no bolso da camisa, que agora já penso que podia ser uma Pólo também. Mas, camisa pólo é coisa do… Acho que era camisa, de botão mesmo, clara, bege.
O local era perto de casa mesmo. Não lembro de termos pegado ônibus e devia ter sido tudo por perto também, porque o colégio seria perto. Eram tempos de matrícula. Não, na verdade era tempo de tirar o RG: Não Alfabetizada. Eu pedi pra treinar a assinatura num pedaço de papel. Disse que era só eu ver meu nome escrito que sabia copiar igual. Mas, minha mãe disse que não podia fazer assim. Achei coisa de burro.
Era cada coisa que não me interessava saber nem entender, que só vejo imagens selecionadas afetivamente pela memória. Pelo menos é assim que, esquisofrenicamente, justifico a escolha dessas imagens que ficam por aí.
O fato é que me colocaram numa cadeira preta, era uma ou duas moças, moças feias, porque minha mãe sempre foi muito muito bonita, pele-morena-cabelos-pretos-volumosos-magra-como-o-quê.
Olhei para a câmera, não era assim que se fazia? Tu olha pra câmera, não se mexe e espera a moça feia “bater a foto”. No âmbito da linguagem, eu sabia o que era bater uma foto. Sabia, ao menos, o resultado e isso já me bastava. Afinal, era para isso que estávamos lá, não era? (Parece que hesitei em chegar perto da cadeira, olhei para ele procurando “um apoio”. Ele correspondeu ao olhar e disse, mais enérgico que carinhoso, mesmo assim, divertido: Vai, senta.)
-Dá um sorrisinho!
-Não vai dar nem um sorrisinho?
-Pra quê essa cara de brava?
-Dá pelo menos um sorriso!
-Moça, pra quê essa cara fechada?
Bom, eu não vou conseguir recordar agora a frase dita por ele. Talvez porque, esquisofrenicamente, eu conclua que a tal frase nem era importante. O que foi fundamental na cena, foi o seu sorriso, o da moça feia (tendo a crer que era somente uma moça; mas, certeza que era feia). O sorriso zombeteiro dele, que eu conhecia bem. O mesmo que me despertou o choro quando estava com o cabelo cheio de espuma de shampoo e ele sorriu dizendo que eu tinha ficado velha. Chorei, chorei e gritei que não tinha ficado velha, só parei de chorar quando ele me chamou de chorona. Sim, desde aquele tempo eu gostava de provar-aos-outros-que-eles-não-sabem-nada-de-mim.
Acabei de lembrar que ele era corintiano.

Híndira

É que, às vezes, dá vontade.

O menino me bebia com o olhar, do jeito que só ele fazia. Com suas mãos pequeninas, remexia meu cabelo e inquiria: Mãe, por que o meu não é desse?
Dizia que o dele era parecido com o do papai.
Mas, eu quero desse seu! Fazia cara de triste e esticava as mãos como se assim, pudesse ter o que queria. O gesto costumava lhe proporcionar sucesso quando eu o pegava no colo, quando lhe dava comida, o copo d’água ou a bala de banana. Seria lógico supor que, estendendo as mãos, conseguiria um cabelo diferente também.
Seus cabelos são lindos, meu pequeno! Você é todo lindo! Eu dizia, agarrando e beijando o menor e mais macio pedaço de coisa viva que eu amava.
Mas, eu quero cabelo de minhoca! Ele apertava minhas mechas de cabelo, fazia pequenas bolinhas de nós…

H

Moura, Wagner.

“Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo “que coisa horrível” (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.

” O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice “

O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.

” Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência “

Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.

No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a “cagada” que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?”

A Imprensa E Nós

- Em greve ainda?
- É, pois é.
- E adianta de que, hein?
- É o que vamos ver, né?
Assim começa a conversa, como muitas conversas que já tivemos. Os personagens deste diálogo somos nós mesmos, professores. Uns e outros.
- Ah, não acredito mais, não.
- Ué? Por que?
- É sempre isso: Greve!
- Sempre?
- E não?
- Não…
- Das outras vezes, deu em nada!
E desta vez, veremos.
- Não tem outro jeito?
- Que jeito?
- Não sei, mas tem que haver…
- Pois é. Qualquer sugestão…
- Ah, então! Poderíamos chamar a imprensa! As pessoas precisam saber o que está acontecendo. A gente pode mandar cartas para os jornais, ver se a gente consegue publicar um artigo. Ou chamar a tevê! Não custa tentar…
- Se bem que a imprensa tem lado nessa história.
- É, tem isso. Ela vive descendo na gente.
- E então, a gente pede para a imprensa se retratar, a se desmentir?
- Ou poderia simplesmente se ater aos fatos!
- Mas sabemos você e eu que as coisas não são bem assim, certo?
- É… mas não custa tentar.
- O ombudsman até reconheceu: “A Folha está cobrindo mal a greve dos professores paulistas. Precisa ouvir mais fontes, analisar com profundidade os temas em debate, relatar com apuro a situação das escolas. Tem sido superficial, burocrática e acrítica.”
- É isso mesmo. E também os outros jornais.
- Pois é. Mas mesmo assim reconhecendo que fazem mal a cobertura da greve… eu acho mesmo que eles fazem mal a cobertura de tudo, inclusive da educação, em geral!
- Ah, isso é verdade…
- Mais do que isto. A imprensa se diz imparcial, mas acaba reproduzindo e confirmando o discurso de quem está no governo.
- Nem sempre…
- É, a depender do governo e de qual iniciativa está sendo adotada. É como se a imprensa já tivesse de antemão a sua opinião. É que ela veicula e faz parecer legítimos os interesses dela ou de quem ela é representante- e para isso fazem os interesses contrários parecerem como ilegítimos. Eles chegam a desqualificar a opinião contrária.
- Mas não custa tentar…
- É. A gente se esforça à beça para publicar um artigo, e o jornal o publica mas, continua a dizer o que bem entende. E ao publicar, dirão que são imparciais, isentos, afinal publicaram nosso artigo.
- Pensando assim, não vale muito mesmo…
- Então, a greve serve para ao menos termos mais espaço na imprensa. Conforme a gente avança, tomando as ruas em passeatas como a que houve na semana passada, eles vão sendo obrigados a ceder neste ponto, sob pena de ficarem absolutamente desacreditados. E olha que, na semana passada, éramos cerca de 60 mil na Avenida Paulista- e a imprensa quis divulgar que não havia mais de 5 mil.
- Para enfraquecer o movimento, não?
- É, eles evitam a todo custo nos dar razão.
- É como eles dizem… em uma guerra, a primeira vítima é a verdade…
- E os números… Você viu que divulgaram a torto e a direito a proposta de aumento salarial que o governo fez, não? Na véspera da Assembléia…
- É, reparei sim. Achei até que o pessoal ia ficar mais tranquilo e encerrar a greve.
- Pois é… acho que a intenção era essa mesma, de que você imaginasse isso.
- 12%, né?
- Foi o que disseram. Mas depois da movimentação toda de sexta feira, e a manutenção da greve, hoje mesmo o jornal teve que se desmentir.
- É?
- É. Não é aumento de 12% coisa nenhuma. O governo vai incorporar ao salário base uma gratificação, que já nos é paga- e divulgaram como se fôssemos ter aumento do que recebemos.
- Ah, entendi agora…
- De aumento mesmo, dá cerca de 5%. Mas o pior mesmo foi divulgarem nos jornais o valor do salário, para uma jornada de 40 horas semanais, quando nossa jornada é de 24 ou 30 horas.
- É, até me disseram que eu estava ganhando bem, e eu não entendi…
- Exatamente para isso: desqualificar nossa reivindicação.

- Está bonita!
Foi o que ele disse enquanto ajeitava a gola da minha camisa. Fiquei contente, das coisas que ele- o pronome- faz e me encanta.

H

No corredor.

- Eu tinha visto uma criança, dia desses, e pensei, sem dó, que não teria filhos. Pensei, com vontade, que gostaria mesmo é de matar alguém, participar da degradação do mundo.
- Botar mais gente no mundo é que é degradação. Matar é atitude higienista.

H

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