Buarque, Chico. 1966

Joana:

Pois bem, você
vai escutar as contas que eu vou lhe fazer;
te conheci moleque, frouxo, perna bamba
barba rala, calça larga, bolso sem fundo
não sabia nada de mulher nem de samba
e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo
As marcas do homem, uma a uma, Jasão,
tu tirou todas de mim. O primeiro prato,
o primeiro aplauso, a primeira inspiração,
a primeira gravata, o primeiro sapato
de duas cores, lembra? O primeiro cigarro,
a primeira bebedeira, o primeiro filho,
o primeiro violão, o primeiro sarro,
o primeiro refrão e o primeiro estribilho
Te dei cada sinal do teu temperamento
Te dei a matéria prima para o teu tutano
E mesmo essa ambição que, neste momento,
se volta contra mim, eu te dei, por engano
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua
Você andava tonto quando eu te encontrei
Fabriquei energia que não era tua
pra iluminar uma estrada que eu te apontei
E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada
uma alma ansiosa, faminta, buliçosa,
uma alma de homem. Enquanto eu, enciumada
dessa explosão, ao mesmo tempo, eu, vaidosa
orgulhosa de ti, Jasão, era feliz
eu era feliz, Jasão, feliz e iludida,
porque o que eu não imaginava, quando fiz
dos meus dez anos a mais uma sobrevida
pra completar a vida que você não tinha,
é que estava desperdiçando o meu alento,
estava vestindo um boneco de farinha
Assim que bateu o primeiro pé de vento,
assim que despontou um segundo horizonte,
lá se foi meu homem orgulho, minha obra
completa, lá se foi pro acervo de Creonte…

Jasão:

Você é a viagem
sem volta, Joana. Agora eu vou contar
pra você, sem rancor, sem sacanagem,
por que é que eu tinha que te abandonar
Você tem uma ânsia, um apetite
que me esgota. Ninguém pode viver
tendo que se empenhar até o limite
de suas forças; sempre, pra fazer
qualquer coisa. É no amor, é no trabalho,
é na conversa, você me exigia
inteiro, intenso, pra tudo caralho…
Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia,
tinha que incendiar a cada abraço,
tinha que calcular cada pequeno
detalhe, cada gesto, cada passo,
que um cafezinho pode ser veneno
e um copo d’água, copo de aguarrás
Só que, Joana, a vida também é jogo,
é samba, é piada, é risada, é paz
Pra você não, Joana, você é fogo
Está sempre atiçando essa fogueira,
está sempre debruçada pro fundo
do poço, na quina da ribanceira
sempre na véspera do fim do mundo
Pra você não há pausa, nada é lento,
pra você tudo é hoje, agora, já
tudo é tudo, não há esquecimento
não há descanso, nem a morte não há
Pra você não existe dia santo
e cada segundo parece eterno
Foi por isso que eu te amei tanto,
porque, Joana, você é um inferno.

Todas as cores.

O trem é todo iluminado pelo sol. É todo transparente, recheado do humor do dia. Ele segue pela superfície, em velocidade peculiar, não é rápido feito o metrô, não empaca feito ônibus.
Desde a estação pode-se testemunhar uma paisagem contraditória. Olhando para frente, vê-se um rio negro e muita vegetação ao seu redor. Ao prender a respiração e simplesmente enxergar a vista, é tudo muito bonito. O céu fica particularmente mais azul que cinza, há matizes de verde muito distantes uns dos outros, como primos que só se encontram no Natal.
Sem sentir o odor do esgoto, não há esgoto. O negro da água desdobra a paisagem, vira óleo sobre tela e a fábrica que aparce no reflexo muito se assemelha à Casa Grande do livro de história. É outro tempo aquele fotografado pela água negra.
Mas, surge a espuma. A criança enche um copo de água, joga detergente, pega o invólucro da caneta bic e assopra na solução. Surge a espuma que transborda do copo. É a mágica, o barulhinho do ar enchendo as bolhas de sabão que refletem todas as cores do mundo.
Foi ali que, pela primeira vez, fechando os olhos diante do sol, também senti a variação. De olhos fechados, vi também todas as cores. Coisa à toa que muito me fascinava era passar a mão pela chama da vela, ou cobrir a luz da lanterna com a mão. Surgia uma mão vermelha repleta de veias, imagem que denunciava qualquer coisa de mim mesma da qual nunca tive controle. Já pensei que pudesse ser a assinatura de deus, mas realmente não acredito num deus que permita tanto sofrimento a quem quer que seja. Embora eu desconheça a causa primeira, sei que o reino perdido nunca existiu e que Pandora não tinha coisa alguma para guardar na caixa, mas foi tão pornográfica a constatação do vazio da caixa, que se fez a loucura.
Mas, a espuma do córrego é imanente ao cheiro, é estéril, recorda a morte e a reprodução ao mesmo tempo: a morte pela putrefação e decomposição e a vida também por esses elementos, posto que há os organismos que se multiplicam na morte, os vermes, micróbios e o que seja. Eles são ativamente transformadores da realidade em matéria, não cessam de consumir tudo que foi abandonado, ignorado. Eles transformam o que ousamos ignorar, denunciam a existência do que deliberadamente abandonamos no leito do rio negro. Nesse aspecto, a espuma do rio é tão pornográfica como o vazio da caixa de Pandora e a loucura sintetiza o vazio como esses organismos sintetizam a matéria.
(Há também as cores na putrefação e decomposição. Há o colorido do bolor. Cores descobertas e combinadas à moda do pintor em sua obra. A matéria morta é colorida e é vida ao contrário, porque é vida que não nos interessa.)

H

Kundera, Milan.1982

(Tinha vontade de telefonar para Sabina em Genebra, de entrar em contato com uma das mulheres de Zurique que conhecera nos últimos meses? Não, não tinha a menor vontade. Sabia que no momento em que se encontrasse com outra mulher, a lembrança de Tereza lhe causaria uma dor insuportável.)

Nobre, Marcos. 2004

Historicamente, entretanto, o grande projeto de emancipação da razão humana esteve sempre colocado na determinação racional dos fins, ou seja, no debate e na efetivação daqueles valores julgados belos, justos e verdadeiros. No capitalismo administrado, a razão se vê reduzida a uma capacidade de adaptação a fins previamente dados de calcular os melhores meios para alcançar fins que lhe são estranhos. Essa racionalidade é dominante na sociedade não apenas por moldar a economia, o sistema político ou a burocracia estatal, ela também faz parte da socialização, do processo de aprendizado e da formação da personalidade.
(…) por que a racionalidade das relações sociais humanas, ao invés de levar à instauração de uma sociedade de mulheres e homens livres e iguais, acabou por produzir um sistema social que bloqueou estruturalmente qualquer possibilidade emancipatória e transformou os indivíduos em engrenagens de um mecanismo que não compreendem e não dominam e ao qual se submetem e se adaptam, impotentes. [?interrogação?] Esse problema mais geral se traduz na tarefa de compreender como a razão humana acabou por restringir-se historicamente à sua função instrumental, cuja forma social concreta é a do mundo administrado.
(…) Sendo assim, a racionalidade como um todo reduz-se a uma função de adaptação à realidade, à produção do conformismo diante da dominação vigente. Essa sujeição ao mundo tal qual aparece não é mais, portanto, uma ilusão real que pode ser superada pelo comportamento crítico e pela ação transformadora. Ela é uma sujeição sem alternativa (…) uma vez que não são mais discerníveis as tendências reais da emancipação. A dominação total e completa da racionalidade instrumental sobre o conjunto da sociedade capitalista resulta então no mencionado bloqueio estrutural da prática.

Carta ao Bradesco

Carta ao BradescoPostado em outubro 6th, 2008 por carneiro em Política
Senhores Diretores do Bradesco,

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina de sua rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da feira, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.

Funcionaria assim: todo mês os senhores, e todos os usuários pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, feira, mecânico, costureira, farmácia etc). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao pagante.

Existente apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade.

Por qualquer produto adquirido (um pãozinho, um remédio, uns litros de combustível, etc) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até um pouquinho acima. Que tal?

Pois, ontem saí de seu Banco com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e de honestidade.

Minha certeza deriva de um raciocínio simples. Vamos imaginar a seguinte cena: eu vou à padaria para comprar um pãozinho. O padeiro me atende muito gentilmente. Vende o pãozinho. Cobra o embrulhar do
pão, assim como, todo e qualquer serviço.

Além disso, me impõe taxas. Uma ‘taxa de acesso ao pãozinho’, outra ‘taxa por guardar pão quentinho’ e ainda uma ‘taxa de abertura da padaria’. Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.

Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo em seu Banco.

Financiei um carro. Ou seja, comprei um produto de seu negócio. Os senhores me cobraram preços de mercado. Assim como o padeiro me cobra o preço de mercado pelo pãozinho.

Entretanto, diferentemente do padeiro, os senhores não se satisfazem me cobrando apenas pelo produto que adquiri.

Para ter acesso ao produto de seu negócio, os senhores me cobraram uma ‘taxa de abertura de crédito’ equivalente àquela hipotética ‘taxa de acesso ao pãozinho’, que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar.

Não satisfeitos, para ter acesso ao pãozinho, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente em seu Banco.

Para que isso fosse possível, os senhores me cobraram uma ‘taxa de abertura de conta’.

Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa ‘taxa de abertura de conta’ se assemelharia a uma ‘taxa de abertura da padaria’, pois, só é possível fazer negócios com o padeiro
depois de abrir a padaria.

Antigamente, os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como papagaios’. Para liberar o ‘papagaio’, alguns gerentes inescrupulosos cobravam um ‘por fora’, que era devidamente embolsado.
Fiquei com a impressão que o Banco resolveu se antecipar aos gerentes inescrupulosos. Agora ao invés de um ‘por fora’ temos muitos ‘por dentro’.

Tirei um extrato de minha conta – um único extrato no mês – os senhores me cobraram uma taxa de R$ 5,00.
Olhando o extrato, descobri uma outra taxa de R$ 7,90 ‘para a manutenção da conta’ semelhante àquela ‘taxa pela existência da padaria na esquina da rua’.

A surpresa não acabou: descobri outra taxa de R$ 22,00 a cada trimestre – uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros (preços) mais altos do mundo.

Semelhante àquela ‘taxa por guardar o pão quentinho’.. Mas, os senhores são insaciáveis. A gentil funcionária que me atendeu me entregou um caderninho onde sou informado que me cobrarão taxas por toda e qualquer movimentação que eu fizer.

Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores esqueceram de me cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações de seu Banco.

Por favor, me esclareçam uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?

Depois que eu pagar as taxas correspondentes, talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que sua responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências governamentais, que os riscos do negócio são muito elevados etc. e tal. E, ademais, tudo o que estão cobrando está devidamente coberto por lei, regulamentado e autorizado pelo Banco Central.

Sei disso.

Como sei, também, que existem seguros e garantias legais que protegem seu negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.

Sei que são legais. Mas, também sei que são imorais. Por mais que estejam garantidas em lei, tais taxas são uma imoralidade.

Repassem esta msg pra seus contatos, quem sabe, muda alguma coisa?
E como diz o velho ditado: A esperança é a última que morre!

(extraído de http://www.blogdolimao.com)

Peanuts.

- EU TE DOU UM MURRO, CHARLIE BROWN! EU TE QUEBRO, CHARLIE BROWN!
-Pera aí! Já te ocorreu que a razão pela qual as nações não se dão é a incapacidade das pessoas se entenderem? Se você e eu…

POU!

- Minha única esperança é ela chegar a ser uma estudante de Ciências Políticas!

(Charles M. Schulz)

Cruz, Juliana. 2008

A Híndira não é tão legal assim.

Próxima Página »


iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

Julho 2009
S T Q Q S S D
« Jun    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Olha só meu mais novo pecadinho!

Pega essa!