A Festa da Menina Morta

Com bafo de cachaça e muita câmera na mão.

Seixas, Raul. Dia desses.

“Você já foi ao espelho, nego? Não?! Então, vá!”

Rasga.

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Anticristo.

Muito bom! Não vou recomendar.
Só que o simbólico assim em imagens é dessas coisas que me comove.
E ver esse filme justo no ano em que decido levar Nietzsche a sério…

Tony Manero

Daí que senti vontade de falar de cinema, pagando um pau, mas sem pretensão de mandar bem feito Ju Cruz.
Tony Manero me chamou atenção por ser um filme chileno, estrelado por um “veterano” ator de teatro (Alfredo Castro) e por ter o nome do personagem de John Travolta em Embalos de Sábado à Noite. Tudo isso me deixou muito curiosa para assistí-lo. O resultado foi um embrulho no estômago. E isso é bom.
Um dançarino de cinquenta e tantos anos que é a referência maior de um grupo de dança que ensaia num bar-casa decadente ambicionando sucesso. O governo de Pinochet é um dos planos da história que se faz presente na miséria material e cultural dos personagens, na brutalidade expressada em seus gestos e relações, desde o trago de cigarro, à bilheteria do cinema, à dança… Que pode ser, inclusive, a dança do opressor e do oprimido que todos, torturador, transgressor, ou mesmo amantes, vão construindo coreografias perturbadoras. Sim, mais um tapa na cara que o cinema gosta de dar, sem afago ou sopro para a dor. Resta a face vermelha e um mínimo de reflexão a respeito do que move cada indivíduo, suas perspectivas, desejos, o indivíduo como produto do meio, yadayadayada. Falta dizer que além de broxa, dançarino e miserável, o protagonista é psicopata.

Tony Manero
Chile
2008

Hauck, Eve. 2009

“É que você é uma dedo podre, sabe.”

Buarque, Chico. 1966

Joana:

Pois bem, você
vai escutar as contas que eu vou lhe fazer;
te conheci moleque, frouxo, perna bamba
barba rala, calça larga, bolso sem fundo
não sabia nada de mulher nem de samba
e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo
As marcas do homem, uma a uma, Jasão,
tu tirou todas de mim. O primeiro prato,
o primeiro aplauso, a primeira inspiração,
a primeira gravata, o primeiro sapato
de duas cores, lembra? O primeiro cigarro,
a primeira bebedeira, o primeiro filho,
o primeiro violão, o primeiro sarro,
o primeiro refrão e o primeiro estribilho
Te dei cada sinal do teu temperamento
Te dei a matéria prima para o teu tutano
E mesmo essa ambição que, neste momento,
se volta contra mim, eu te dei, por engano
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua
Você andava tonto quando eu te encontrei
Fabriquei energia que não era tua
pra iluminar uma estrada que eu te apontei
E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada
uma alma ansiosa, faminta, buliçosa,
uma alma de homem. Enquanto eu, enciumada
dessa explosão, ao mesmo tempo, eu, vaidosa
orgulhosa de ti, Jasão, era feliz
eu era feliz, Jasão, feliz e iludida,
porque o que eu não imaginava, quando fiz
dos meus dez anos a mais uma sobrevida
pra completar a vida que você não tinha,
é que estava desperdiçando o meu alento,
estava vestindo um boneco de farinha
Assim que bateu o primeiro pé de vento,
assim que despontou um segundo horizonte,
lá se foi meu homem orgulho, minha obra
completa, lá se foi pro acervo de Creonte…

Jasão:

Você é a viagem
sem volta, Joana. Agora eu vou contar
pra você, sem rancor, sem sacanagem,
por que é que eu tinha que te abandonar
Você tem uma ânsia, um apetite
que me esgota. Ninguém pode viver
tendo que se empenhar até o limite
de suas forças; sempre, pra fazer
qualquer coisa. É no amor, é no trabalho,
é na conversa, você me exigia
inteiro, intenso, pra tudo caralho…
Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia,
tinha que incendiar a cada abraço,
tinha que calcular cada pequeno
detalhe, cada gesto, cada passo,
que um cafezinho pode ser veneno
e um copo d’água, copo de aguarrás
Só que, Joana, a vida também é jogo,
é samba, é piada, é risada, é paz
Pra você não, Joana, você é fogo
Está sempre atiçando essa fogueira,
está sempre debruçada pro fundo
do poço, na quina da ribanceira
sempre na véspera do fim do mundo
Pra você não há pausa, nada é lento,
pra você tudo é hoje, agora, já
tudo é tudo, não há esquecimento
não há descanso, nem a morte não há
Pra você não existe dia santo
e cada segundo parece eterno
Foi por isso que eu te amei tanto,
porque, Joana, você é um inferno.

Próxima Página »


“Enquanto isso, no lustre do castelo…”

iequetingueleguelê

"...Xanduzinha, que vergonha Espezinharam-na-fulô E chegou um chamego chamado pop Ah, puta que pariu, Bate funk bate folk Ah, puta que pariu Bate estaca, bate rock Ah, puta que pariu..."

Tic Tac Tic Tac…

Novembro 2009
S T Q Q S S D
« Out    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Olha só meu mais novo pecadinho!